DÉCADA DE 1990

Bruno Wanderley Júnior

MINHA VIDA NO CAAP 

1988: Ingressei na Faculdade de Direito da UFMG no primeiro semestre de 1988. Eram anos difíceis... Pleno governo José Sarney, com inflação galopante e denúncias de corrupção no Brasil. No mundo, a turbulência girava em torno da Guerra Fria, que começava a dar sinais de desgaste (e irai ser realmente desmontada a partir da eleição de Mikhail Gorbachov, como premier russo, naquele ano). Havia uma efervescência política em todos os cantos do planeta. 1988 foi o ano da nossa efetiva retomada da democracia. Após a derrota das "Diretas Já", em 1984, renovava-se no povo a esperança de novos tempos com a derrubada dos últimos resquícios da Ditadura Militar, com a substituição da Constituição por eles outorgada em 1967, pela Constituição "cidadã", que estava sendo finalizada pela Assembleia Constituinte. Naquela época as ciências humanas e sociais, incluindo-se o Direito, tinham um Ciclo Básico de um semestre realizado inteiramente na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH), com as disciplinas introdutórias, como Economia, Lógica, Sociologia e Política. A única disciplina do currículo do Direito era a "Introdução ao Estudo do Direito I", ministrada na FAFICH pelos professores Arnaldo Afonso Barbosa, à noite e Maria Helena Megale, de manhã. A FAFICH se localizava na rua Carangola, no Bairro de Santo Antônio, local emblemático, onde o movimento estudantil enfrentou a ditadura nos anos de chumbo. Era um prédio cercado por um terreno arborizado e amplo, no qual os estudantes se dedicavam a atividades recreativas, como aulas de capoeira e música, ou simplesmente se harmonizavam com a natureza. Havia um boteco na parte interna, que servia cerveja e bebidas destiladas, acompanhadas de tira-gostos tipicamente mineiros. Era um oásis de liberdade e de debates culturais e políticos acalorados. Ali, os estudantes dos diversos cursos das ciências humanas tinham a oportunidade de dialogar e trocar experiências e ideias, numa interação multidisciplinar. Nesse período, nós, os calouros, fomos recebidos pelo DCE e pelo CAAP, cujo presidente, Agnus Rodrigues da Silva, nos apresentou sua rica história. Naquele ano, o CAAP comemorava seus 80 anos de lutas e representação estudantil. Era também o aniversário de 30 anos da Divisão de Assistência Judiciária (DAJ), que na época se chamava Departamento de Assistência Judiciária, e de cuja criação o CAAP também participou. Contudo, no primeiro semestre, não tinha como os calouros participarem oficialmente do CAAP, pois a eleição seria no segundo semestre. Mas, havia um órgão de representação estudantil próprio para os recém ingressos nos cursos de ciências humanas e sociais na UFMG, era o "Centro de Estudos do Básico" (CEB), uma espécie de DA dos calouros. Apesar de haver um Diretório Acadêmico da FAFICH, os calouros dos diversos cursos tinham seu próprio órgão de representação. E foi no CEB que iniciei minha história no Movimento Estudantil. Fui eleito Coordenador do CEB no turno da noite, tendo como vice-coordenador o estudante de economia, Henrique Capdeville. No turno da manhã, o Coordenador era Luiz Gustavo Combat Vieira, também do curso de Direito. Foi uma experiência edificadora e inesquecível. Fazíamos amigos nos diversos cursos e aprendíamos a lutar pelas nossas prerrogativas como estudantes e ir além, lutando também pelas causas de interesse nacional. Em maio de 1988, por exemplo, a União Nacional dos Estudantes (UNE) organizou, em parceria com a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) e os vários DCEs e DAs das Universidades públicas e privadas, um encontro de milhares de estudantes em Brasília, para acompanhar a votação do capítulo sobre Educação, na futura Constituição da República. O CAAP organizou o ônibus que levaria os estudantes de Direito à manifestação. Da FAFICH sairiam mais dois ônibus. Foi uma experiência mágica, que mudaria a minha vida. Um estudante de Direito do primeiro período se juntando a milhares de outros estudantes para uma manifestação histórica, em defesa da educação pública e gratuita na elaboração da própria Constituição (havia um movimento para retirar o ensino gratuito nas Universidades e lá fomos nós, lutar contra essa ideia). Vale destacar que o CEB e o CAAP, receberam o apoio do professor de Teoria do Estado, Aloízio Gonzaga de Andrade Araújo (que viria a ser Diretor da Casa de Afonso Pena por dois mandatos), que contatou o Deputado Constituinte Otávio Elísio (ex-secretário de Educação do Estado de Minas Gerais), que por sua vez nos garantiu acesso ao plenário da Constituinte. Entramos... pudemos ver a história sendo feita ali, diante de nossos olhos. Pressionados pelos milhares de estudantes e por uma nação que acordara para a importância de um Estado Social e Democrático para o Brasil, vimos os constituintes, como os Deputados Otávio Elísio e Elias Murad, defenderem o ensino público gratuito e inclusivo, garantindo enfim que isso se tornasse uma cláusula pétrea da Constituição. Foi ali, que nasceu em mim a compreensão de que podemos mudar o mundo, se nos organizarmos e lutarmos por nossos ideais; a certeza de que o movimento estudantil era uma força política importante na sociedade; o orgulho de ver o CAAP fazendo parte ativa dessa história; e o amor pelo Direito Constitucional, que definiu minha vocação para o magistério nessa área, que honrosamente leciono na nossa Vetusta Casa de Afonso Pena. Naquele momento, decidi que tinha que ser membro do CAAP. Em frente ao Congresso, os estudantes formavam a frase "fora Sarney", entoando palavras de ordem, numa típica manifestação contra a corrupção e antigovernista, o que não poderia faltar nas lutas estudantis da época (eu mesmo estava lá, na letra "F").

Em 05 de outubro daquele ano, a ditadura era enterrada e a democracia, recém conquistada, dava seus primeiros passos sob uma nova ordem jurídica, a da Constituição de 1988. No final daquele ano, participei das eleições do CAAP. Nossa chapa, chamada "Novação", venceu a chapa "Acorda Liberdade" e o novo presidente do Centro Acadêmico Afonso Pena foi Elton Lopes Nunes. Naquela época, estudantes ditos "profissionais", por defenderem grupos políticos organizados dentro das Universidades, cuja condição de estudantes era tida como fachada para cooptar adeptos no movimento estudantil, ainda estavam circulando pela Vetusta. Representavam movimentos como o MR-8, a Centelha (trotskista) e a LIBELU (Liberdade e Luta) ligado ao Partido dos Trabalhadores. Outros partidos tinham seus recrutadores no movimento, como o PCdoB, o PDT e o recém-criado PSDB. Apesar disso, a chapa vencedora era a única que não estava alinhada com nenhum desses grupos ou partidos, embora tivesse em seus quadros alunos engajados nesses grupos. 1989: Um dos anos mais difíceis da nossa história, com inflação chegando perto dos 90% ao mês e crises nos governos federal e estadual. Foi o ano da primeira eleição direta para presidente após a Ditadura Militar, sendo eleito Fernando Collor. No mundo, 1989 foi um ano agitado. Toma posse nos Estados Unidos o Presidente George Bush, ex-diretor da CIA; a Rússia se retira do Afeganistão; é criada a World Wide Web (www), que seria responsável pela revolução tecnológica da era da internet; na China, houve o massacre da Paz Celestial; na Polônia, o partido Solidariedade, do líder Lech Walesa, ganha as eleições; em novembro, o Muro de Berlin é derrubado e, em dezembro, George Bush e Mikhail Gorbachov anunciam o fim da guerra fria. Esse era o cenário nacional e internacional, do ano de 1989, meu primeiro ano no CAAP. Fiz parte das Diretoria de Comunicação do CAAP e fui representante discente no Departamento de Direito Público, do qual faço parte hoje como professor. Na Faculdade, o Diretor, Washington Albino, fazia uma gestão de aproximação com os estudantes, estreitando suas relações com o CAAP. Havia muitas pautas internas, como a reabertura do bandejão, a reforma da biblioteca, o aumento nas bolsas de estudo e a criação de um programa de iniciação científica em todas as áreas do Direito (naquela época somente o Direito Econômico - área do Diretor Washington Albino - é que possuía um programa de iniciação científica efetivamente operando, sob a coordenação da Profa. Terezinha Linhares). A gestão do CAAP de 1989 participou de diversas manifestações, inclusive apoiando movimentos sociais, passeatas e greves que sempre se reuniam na praça Afonso Arinos, em frente à Faculdade para, a partir dali, iniciarem suas manifestações. A Casa de Afonso Pena, nesse sentido, era a casa do todos os cidadãos. Foi nesse ao que também foi feita a primeira grande reforma do Espaço Livre José Carlos da Mata Machado, incluindo aí a reforma da cantina do CAAP que, na verdade, era uma espécie de "boteco", pois vendia bebidas alcoólicas. No fim do ano, nas eleições, mais uma vez enfrentamos a chapa ligada aos partidos de esquerda, chamada "A Cor da Liberdade" (o nome foi alterado, mas era o mesmo grupo derrotado no ano anterior). Nossa chapa, chamada "Noventidade", venceu as eleições para a gestão 1990, tendo como presidente, Dailton Pedro Ribeiro, e como vice, Luiz Gustavo Combat Vieira, meu antigo companheiro do CEB. 1990: No Brasil, toma posse o Presidente Collor que, dentre outras medidas desastrosas, criaria naquele ano o chamado "Plano Collor", que desestruturou a economia no Brasil. Na África do Sul é libertado o líder político e ativista Nelson Mandela. Em julho a Alemanha seria reunificada, como mais um efeito do fim da Guerra Fria. A Globalização econômica é oficialmente anunciada. Nesse ano, a gestão do CAAP priorizou as participações nos encontros estudantis, em especial o ENED, aumentando também sua participação nos órgãos colegiados da Faculdade. O Diretor Washington Albino inaugurou o prédio Vale Ferreira, onde hoje se encontram as salas de aula da graduação. Até então, a graduação ficava no outro prédio, o Vilas Boas, junto com a administração e a Diretoria. Nas eleições para a Diretoria da Faculdade houve um racha na chapa do CAAP, pois metade apoiava a profa. Misabel Derzi e a outra apoiava a candidatura do Prof. José Alfredo Baracho. A campanha foi a mais movimentada e disputada até então, tendo até carro de som e comício. Venceu o Prof. Baracho, tendo o Prof. Aloísio Gonzaga como vice. Nas eleições do CAAP, nossa chapa, "Petição Inicial", derrotou a chapa contrária, "Contestação", para a gestão 1991. O Presidente seria Manoel Tavares e eu fui eleito vice-presidente. 1991: Mais um turbulento ano para o mundo. Tivemos a Primeira Guerra do Golfo; a União Soviética foi oficialmente desmontada; junto com Argentina, Paraguai e Uruguai, o Brasil assina o Tratado de Assunção, criando o MERCOSUL. No Brasil, a economia desaba sob os Planos Collor 2 e Plano Marcílio. A gestão da chapa Petição Inicial tentou reabrir o bandejão, sem sucesso. Promoveu outra reforma no Espaço Livre e na sala do CAAP, arrendando a cantina para uma empresa profissional, que melhor atendia a demanda dos alunos e funcionários; comprou também uma máquina de xerox para atender aos colegas com preços subsidiados; e, pela primeira vez, se uniu à PUC e à Milton Campos para potencializar a atuação de Minas no movimento estudantil nacional. Nessa época, conheci Fabrício Matos Gonçalves, do DA da PUC Minas, que viria a atuar comigo em todos os encontros, estaduais e nacionais, sendo um dos meus maiores amigos até hoje. Fabrício é professor da PUC e foi Presidente da OAB/MG. Na faculdade, a relação do CAAP com a Diretoria foi excelente, tendo o Prof. Baracho e o Prof. Aloísio nos apoiado em todos os projetos. Nessa gestão, o CAAP também passou a interagir com a representação discente na pós-graduação. Muitos dos antigos membros do CAAP, como Rafael Pimenta e Roberto Auad (ex-presidente do CAAP), além dos alunos da pós-graduação, como a atual chefe do Colegiado, Yaska Campos, participaram das reuniões do CAAP e ajudaram no preparo dos nossos colegas para a atuação política dentro e fora da Faculdade. No final do ano de 1991, a chapa "Centenário" venceu as eleições do CAAP. Essa foi a primeira chapa da qual eu não participei, pois estava formando naquele ano e tive que me dedicar ao estágio e à DAJ. Mas, tive o privilégio de conhecer e apoiar um dos melhores presidentes do CAAP, Luciano Portilho Matos, que iniciou sua gestão em 1992. Dentre outras realizações, foi essa gestão que, finalmente, reabriu o nosso bandejão. Além disso, foi uma das instituições mais importantes nas manifestações dos "caras pintadas", à época do impeachment de Collor de Melo. Essa foi a minha história no CAAP. Fiz os melhores amigos da minha vida. Nos encontramos até hoje. Inclusive antigos adversários, que são e sempre foram como irmãos, afinal todos compartilhávamos da mesma paixão, o movimento estudantil, e do mesmo amor, o CAAP. Havia rivalidade, mas não inimizade. Todos lutávamos pela mesma causa. Também é importante o registro do imprescindível "Inaciu's Bar". Um bar que ficava na rua Guajajaras bem atrás da Faculdade. Lá, professores, servidores e alunos participavam como iguais de discussões políticas, literárias e etílicas. Era considerado como "anexo 2 da Vetusta". Reuniões de chapas do CAAP, discussões sobre os rumos do país e do mundo e até algumas aulas, quando o assunto era tão bom que ninguém saía do bar para retornar à sala de aula (nem alunos, nem professores). Rsrs... Uma verdadeira confraria. Nenhuma outra Faculdade de BH teve isso. Em resumo: Entrei para o CAAP por reconhecer a sua importância, não apenas como órgão de representação dos estudantes dentro da Faculdade, mas por sua tradição e história na luta pela liberdade, justiça e democracia no Brasil. O CAAP sempre agiu com respeito com os colegas, professores e servidores, inovando sempre nas ações e prol da Faculdade. Destaco aqui o curso de idiomas, que abre as portas de todos para um mundo de oportunidades. Minha experiência mais marcante foi a manifestação estudantil em Brasília, em 1988, durante a Assembleia Constituinte. O CAAP me permitiu crescer como pessoa, como estudante e como cidadão. Foi a experiência mais enriquecedora de toda minha caminhada acadêmica. Como mensagem, digo aos estudantes da nossa Vetusta Faculdade... Participem do CAAP. Não só das eleições, mas da gestão, dos projetos e das lutas. Vocês farão parte da nossa história e ajudarão a manter acesa a chama da justiça, representada pelo nosso Centro Acadêmico Afonso Pena. Deus os abençoe. Bruno Wanderley Júnior

A "velha guarda" do CAAP: Ricardo Camargo; Roberto Auad; Marcelo e Ricardinho. No Ináciu's Bar.

Em 1984: Prof. Paulo Neves de Carvalho, Roberto Auad e Magid Lauar, com o então candidato à Presidência e ex-aluno da Vetusta, Tancredo Neves. A pauta do CAAP era: "Diretas Já"!

Várias gerações do CAAP com o Prof. Baracho, Ex-Diretor da Faculdade, e o Prof. Willy Duarte Costa, no fim da Década de 1990.

Inauguração do busto do Prof. Paulo Neves, em março de 2020. Ao centro, Profa. Maria Coeli e Profa. Misabel Derzi. Ao fundo, o Prof. Florivaldo Araújo, um dos maiores presidentes do CAAP de todos os tempos.

Na foto de 1992, o Prof. Baracho. Ao seu lado Luciano Portilho, Presidente do CAAP e José Luiz Borges, hoje professor da Vetusta.

Um dos encontros anuais dos ex-colegas da Vetusta, em 2010: Roberto Auad, Bruno Wanderley, Rafael Pimenta, Braga da Rocha, Tatiana Camarão e Luciano Portilho. Várias gerações de ex- membros do CAAP: amigos para sempre.

11 de agosto de 1990. A diretoria do CAAP "presa" após um *pindura*na churrascaria Carretão, no BH Shopping. Em seu socorro o Diretor da Vetusta, Prof. Baracho e o guru da turma, Prof. José Ribens. O Presidente do CAAP era Daílton Pedro Ribeiro, que também está na foto

Luciano Portilho Mattos 

O CAAP pela atual Gestão REAPROXIMAR, promove e pede este breve relato para registrar histórias e memórias dos colegas de gerações, gestões e tempos diversos que participaram do CAAP. Agradeço a honra e gentileza do convite. Reaproximar significa também, resgatar vínculos, memórias, histórias e tanto aquilo, que move este texto, como o que escreveu Carlos Drummond de Andrade no seu poema "Memória": "Mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão".

Tive a oportunidade de participar do CAAP de forma intensa na década de 90 e sou grato pela experiência, laços acadêmicos, políticos e de amizade que se forjaram neste período e que permanecem até hoje.

Desde o tempo de colégio quando presidi o grêmio da escola e a união municipal estudantil secundarista da cidade onde nasci, o interesse e o respeito pelo movimento estudantil, reorganizado e incentivado, após o período da ditadura militar, como espaço para a participação política de estudantes e das juventudes, foram caminhos naturais para participar e presidir o CAAP por duas gestões: a Gestão CENTENÁRIO em 1992 e a Gestão DIRETAS JÁ em 1994.  

Posse da gestão Centenário em 10 de dezembro de 1991, dia do aniversário da Faculdade e início das comemorações do centenário em 1992.

De pé: Luciano Portilho Mattos- presidente do CAAP e José Alfredo de Olveira Baracho - Diretor da Faculdade no centenário. Sentados o Vereador de BH - Antônio Pinheiro, representando a CMBH e Presidente da AAA da FDUFMG em 1991/1992, Luiz Gustavo Combat Vieira

Faço parte de uma geração de estudantes que ficou conhecida como a "Geração dos Caras Pintadas" de 1992, do Impeachment do Collor, quando o CAAP foi a liderança e a referência em Minas Gerais e no Brasil, (a música do Skank - Indignação - foi a trilha desta época em BH), do Movimento pela Ética na Política - também liderada pelo CAAP no Estado - da Campanha do Betinho: "Contra a fome, a miséria e pela vida". Tempo e período da reorganização e novo protagonismo do movimento estudantil nas escolas, nas universidades e no país. Um tempo também de muita efervescência acadêmica, política, cultural, e de costumes. A visibilidade das atuais pautas identitárias nacionais e movimentos sociais começavam, pós constituição de 1988, vicejar e ocupar o espaço que devem ter.

A relação de nossas gestões com alunos, nos períodos que mencionarei aqui sempre foram muito assertivas, cordiais - a despeito da disputa natural das divergências e oposição nos debates e embates entre os alunos e ideias distintas como ocorre em qualquer entidade. Havia sempre um vigor e interesse pelas causas e pautas políticas e intelectuais da época. E as diferenças eram naturais. Posições políticas e ideológicas divergentes não impediam o convívio, as amizades, a boa prosa, no espaço do território livre, ou numa boa mesa de bar. Aliás, como eram boas as disputas políticas. Tempo de disputas/embates, ainda que ferrenhos, onde havia civilidade; uma das faces da boa política e da democracia.

Nossas convergências e respeito recíproco com a AAA, com a DAJ - que foi criada pelo CAAP em 1958 - com os servidores, professores, Diretoria da Faculdade e Reitoria da UFMG, tornaram as atividades, eventos e realizações em parcerias exitosas que, à época, na Gestão de 1992, marcaram o período de comemoração do Centenário da Faculdade de Direito da UFMG. Entre tantos, me recordo aqui que reformamos e reabrimos o "bandejão" da Faculdade de Direito, junto com a FUMP, fechado desde 1986, reformamos totalmente e reabrimos a Cantina do Pátio e fizemos a primeira parceria com uma empresa do ramo de lanchonetes que após a licitação, feita pelo CAAP assumiu a cantina, antes administrada pelo CAAP. Fizemos as primeiras intervenções e melhorias nas instalações físicas da sala do CAAP e do território livre. Retomamos o nosso jornal VOZ ACADÊMICA - a primeira edição da nova fase - que existe até hoje. E muito trabalho em conjunto com a "Comissão do Centenário da Faculdade", da qual fiz parte representando o CAAP, com a realização semanal de eventos acadêmicos, seminários nacionais e internacionais, muita arte e um ambiente inesquecível durante o ano de 1992, também com festas, eventos culturais e calouradas memoráveis.

Uma curiosidade e que marcou doravante a entidade, foi a produção da nova logomarca, símbolo e bandeira do CAAP desde então, feita por nós em 1992. Tecida e construída à mão em lápis, caneta e nanquim, entre rabiscos e sugestões, ideias, dos colegas de gestão, noites adentro, até a "arte final", sem programa de computador, continuo a ver sempre ali, registrada para sempre, a marca, os rostos, esforços, a paixão e o sorriso, de cada um dos colegas de gestão, enfim de toda história que juntos construímos naquele 1992, ano do centenário da nossa faculdade.

Seguimos em 1993, parte grande do grupo da gestão de 1992 somada e renovada a novos alunos, na Gestão EM FRENTE - ano em que se comemorou os 85 anos do CAAP - com a liderança nacional no movimento estudantil, e de área, com a coordenação nacional da Campanha Nacional pelo Parlamentarismo, coordenando a convite e junto do ex-governador Franco Montoro e diversas lideranças distintas da cena política nacional a Frente Parlamentarista Ulysses Guimarães, para o plebiscito sobre forma e sistema de governo que ocorreu naquele ano. Formamos dentro da UFMG uma aliança de entidades estudantis, que se identificavam como independentes de partidos, e se juntavam nas eleições do DCE, como foi em 1993 e tantos eventos conjuntos.    

Reunião de comemoração aos 85 anos do CAAP 

Da esquerda para a direita em pé, Presidentes: Segismundo Gontijo, - 1958, Advogado. Francelino Pereira do Santos, 1945, Ex-Governador de MG. Paulino Cícero - ex tesoureiro do CAAP em 1959, á época Ministro de Minas e Energia do Governo Itamar Franco e representando Itamar na solenidade. Adônis Ferreira, Advogado , 1953.    Raul Machado Horta, Professor Titular de Direito Constitucional e TGE da FDUFMG, 1945. José Bento Teixeira de Salles, Advogado e Jornalista, 1947. Antônio Duarte Guedes Neto, Professor da FDUFMG, 1979. Marcos Agnelo, Advogado, 1975 ou 1976.

Sentados: Carlos Cosenza, 1977. Bernardo Lopes Portugal, 1993, Luciano Portilho Mattos, 1992 e 1994, Maurício Campos de Oliveira Júnior, 1986. Manoel Francisco Tavares, 1991.

Ainda estiveram presentes outros ex presidentes que chegaram atrasados ou não couberam na foto: Florivaldo Dutra Araujo, 1984, Roberto Auad, 1983, Dailton Pedro Ribeiro, 1990, Mário Lúcio Quintão Soares, 1974.

Em 1994, volto a presidência do CAAP, por escolha e convite dos integrantes do grupo. Confesso, hoje, que foi um certo exagero, já tinha dado minha contribuição, e seria muito mais penoso se não tivesse ocorrido, uma renovação grande de pessoas e quadros, cheios de qualidade e entusiasmo, todos dos primeiros períodos da graduação na formação e trabalhos da Gestão DIRETAS JÁ, referência aos 10 anos da campanha "Diretas Já" pela volta da eleição livre e direta para a presidência da república.

Era ano também de eleição presidencial, vencida por FHC. Ano do plano Real, quando muitos de nós que fomos ao ENED de Blumenau/SC, tocamos as mãos nas primeiras notas do real. Com dez reais, 20 reais no bolso muita gente querida se divertiu, à beça, naquela viagem e encontro. Debates e encontros realizados naquele ano foram marcantes, organizamos e produzimos o primeiro debate ao vivo - transmitido do Auditório da Faculdade pela TV Minas - entre os candidatos ao Senado por Minas Gerais na eleição de 1994. Imprimimos o primeiro "Manual do Calouro", edição bonita, com a ajuda da Editora Del' Rey. Organizamos no pátio o primeiro "Arraial da Vetusta" em parceria com as comissões de formatura. Implantamos definitivamente, com espaço físico e com liberdade o CRT que constava do Estatuto. A pauta e a voz das pessoas em situação de rua além de todo nosso apoio, teve uma edição especial do VOZ ACADÊMICA em 1994. Quem quiser conferir mais a história destes tempos, 1992, 1993 e 1994, procure os exemplares encadernados das edições do "VOZ" que estão sob a guarda da biblioteca. Há muita coisa a dizer, sobre a história e fatos vividos. Fica aqui este breve registro.

Participar e conhecer o CAAP é viver intensamente esta construção permanente da história do Movimento Estudantil, da Faculdade de Direito da UFMG e da nossa centenária entidade. Para os que viveram, que compartilhem o que deixaram de seu. Que possamos nos reunir - Reaproximar - numa ocasião em breve, para além destes tempos de pandemia, para contar bons casos e histórias que não cabem aqui. Fomos e somos muitos desde 1908. Para os que desejam, não abram mão desta experiência, do convívio, da formação integral no Direito, na Política e de tanto mais além disso: de conhecer, aprender, servir, reunir conhecimento e ser parte desta história; de quem sabe e sente, posso compartilhar, que vale cada dia que a gente vive naquele velho espaço e imenso território. Com a permissão do poeta, estas suas lembranças também ficarão.